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Diabetes - A epidemia tem cura?

O mundo vive atualmente um a epidemia global de diabetes de proporções catastróficas, cuja tendéncia é apenas piorar. Para alguns especialistas, a diabetes já mata tanta gente quanto a Aids e é encarada como urn dos principais desafios na área da saúde do século XXI. Para se ter uma idéia da gravidade e amplitude da situação, um relatório recém-divulgado no Congresso Mundial de Diabetes estima que a doenca deva atingir 7% da população adulta do mundo em 2025, cerca de 380 milhões de pessoas. Hoje estima-se que 240 milhões de pessoas sofram com a doenca no mundo. Vale lembrar que há duas décadas, esse número era de 30 milhões. A cada 10 segundos, uma pessoa morre de doenças relacionadas à doenca. Sao cerca de 3,8 milhões de mortes por ano, sendo a maior parte em decorrência de complicações como derrame e infarto.

0 Brasil também engorda o quadro negativo das estatisticas. Segundo o último ceriso realizado pelo Ministério da Saúde, no começo dos anos 90, quase 8% da população, ou 10 milhóes de pessoas, é diabética. Desse montante, 90% são portadores da diabetes tipo 2, cuja relação e maior com os casas de obesidade e sedentarismo. E justamente ai que reside o maior fator de risen e principal causa para o crescimento da epidemia: o progresso econômico e as conseqüentes mudanças no estilo de vida da populacão, principalmente nos paises em desenvolvimento, estão criando urna gerarão enferma, que se alimenta mal e não pratica exercícios. Um prato cheio para a diabetes. Embora o governo ainda se preocupe mais em atacar a "fome", no Brasil, o excesso de peso já preocupa mais do que a desnutrirão. Um estudo divulgado no final de 2006 pelo Ministério da Saúde, baseado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia c Estatistica (IBGE) revela que a desnutrição no país diminuiu, ao passo em que a população está cada vez mais gorda. Entre os adolescentes do sexo masculino, onde a prevaléncia do problema é maior, o indice de obesos mais que dobrou: subiu para 18% em 2003, contra 8,3% em 1.989.

Remédios Inovadores

Esse cenário traz prejuizos imensos aos cofres públicos e movimenta um mercado bilionãrio no mundo inteiro. 0 relatório 2006 Diabetes Atlas prevê que o mundo deverá gastar aproximadamente 215 bilhões de dólares com a doenca em 2007. Em 2006, entre os meses de janeiro e outubro, o roer calo brasileiro de produtos para diabetes registrou uma alta de 19%, equivalente a 378 milhões de reais, segundo o IMS Health, instituto que audita o mercado farmacêutico. Em 2005, o faturamento no Brasil foi de 136,2 milhões de dólares, sendo 34,9 milhões de deitares referentes a vendas de insulinas e a restante aos medicamentos orais. Para os patentes, a boa noticia é que para 2007, os laboratórios que atuam no segmento preparam uma enxurrada de lançamentos, que prometem melhorar a qualidade de vida dos diabéticos e, quem sabe, ate mesmo levar á "cura" da doença a longo prazo. Em função disso, os especialistas de mercado estimam que o segmento deverá crescer ainda mais em 2007, em torno de 30%. Percentual que sc.) tende a aumentar, uma vez que pesquisas realizadas no Brasil e rio exterior comprovam que mais da metade dos portadores de diabetes não sabem que têm a doença. No Brasil, o indice de desconhecimento chega a 84%, segundo um levantamento feto pela Pfizer. Além da insulina inalável, novidade que deverá sacudir o mercado, a grande novidade fica por conta de uma nova geração de medicarentos, baseada numa abordagem inovadora para o tratamento da diabetes. Tratam-se de duas novas classes terapêuticas recém-descobertas pelos cientistas, chamadas "inibidores da enzima DPP4" e "análogos do GLP1". As novas drogas atuam diretamente sobre o mecanismo de funciona-mento das incretinas, os hormônios que estimulam o pancreas a produzir a insulina. A vantagem é que. ao contrário de muitos remédios atuais. as drogas não engordam e apenas estimulam a produção de insulina se o nível de glicemia estiver elevado. "E um pouco mais fisiológico. Os remédios que os pa-cientes utilizam aumentam a producao de insulina independente de o paciente estar cor: glicose alta ou baixa e Isso acarreta um inconveniente, que e a hipoglicemia (nível baixo de açúcar no sangue)", ex-plica o endocrinologista Marcos Tambascia, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). "Outra vantagem, anda teonca, é que quando se aumenta o nivel de GLP1 você recupera a célula beta do páncreas, que produz a insulina", afirma. Em outras palavras, no caso de o paciente com dia-betes tipo 2 ser diagnosticado e tratado precoce-mente com as novas drogas. ele podem se curar após anos de uso continuo do medicamento. Isto. entretanto, é apenas uma hipótese, como salienta o médico.

Januvia e Galvus

Representantes da classe denominada "inibidores da enzima DPP4" (dipeptidil peptidase), Januvia (fosfato de sitagliptina) e Galvus (vildagl paina) chegam ao Brasil trazidos pela Merck Sharp & Dohme (MSD) e Novartis, respectivamente. A duas drogas melhoram a ação das incretinas horrndnios que atuam de modo fisiológico para manter os niveis normais de açúcar no sangue. Segundo a MSD, nos testes realizados com o Januvia, a droga demonstrou melhor perfil de tolerabilidade, ou seja, me-nos efeitos adversos, corno aumento de peso e hipoglicemia. Tem também a vantagem de ser um medicamento oral, para administracão em dose diária única, podendo ser tornado a qualquer flora do dia e não somente quando os niveis de glicose estão altos. A Novartis espera dobrar sua participação no mercado de diabetes com Gatvus, que tem lançamento previsto para o primeiro semestre deste ano. Hole a companhia detém 3,7% do mercado, Também administrado via oral uma vez ao dia, Galvus age sobre as células alfa e beta do pan• creas, reduzindo a produção excessiva de açúcar, ao mesmo tempo em que aumenta a insulina no sangue. A droga não afeta o peso do paciente e pode retardar a necessidade de insulina para o con. trole glicém co do diabético tipo 2. Não é indicada, no entanto, para pacientes que já estão na fase de tratamento exclusivo com insulina.

Byetta e Liraglutide

A Eli Lilly planeja reforçar seu portfõlio de medica-mentos para a diabetes com o Byetta (exenatida), comercializado nos EUA desde 2005. 0 pr nciple ativo da droga e um composto sintético derivado da saliva do Monstro de Gila, o maior lagarto venenoso dos EUA. Assim como os inibidores da DPP4, o Byetta é capaz de estimular a produção de ursu-Lna somente em resposta á elevação da glicose no sangue. Ao mesmo tempo, leva á perda de peso, sem redução acentuada da glicemia e acaba retardando a necessidade do riso da insulina pelo paciente. Injetável, a droga pertence á classe dos análogos do GLP1, simula a ação do hormônio responsável pela sincronia do uso do acucar no orgarismo. Em outras palavras, a substãncia mita a resposta natural do organismo ao restaurar a producáo da insulina quando o paciente se alimenta. Atuando nesta mesma classe de medicamentos inovadores, a Novo Nordisk, lider mundial no tratamento da dia-betes, já prepara para 2007 o lancamento mundia do Liraglutide. 0 medicamento análogo em forma injetável e de longa duração aumentou em até 114% a capacidade das células beta do pancreas de secretar insulina, em comparação ao placebo. "0 Liraglutide melhora significativamente o controle da glicose no sangue sem o risco de pequenas ou grandes hipoglìcemias, é bem tolerado, diminui o peso e pode ajudar a melhorar a capacidade do corpo de produzir insulina", afirma o pesquisador Sten Madsbad, do Departamento de Endocrinologia do Hospital Hvidrove da Universidade de Copenhague, na Dinamarca.

Insulina 24 horas

Outra novidade que chega ao mercado agora é r Accu-Check Spirit, um novo Sistema de Infusão Continua (SIC) de insulina que dispensa as múltiplas injecões diárias da substância e proporciona uma qualidade de vida melhor ao paciente. Normalmente, um insulino-dependente precisa aplicar de três a quatro injeções por dia. 0 SIC è ligado ao corpo 24 horas por dia através de um cateter, e administra a insulina conforme a necessidade, acabando com os eventuais picos de glicemia no sangue. "Urna cas principais vantagens e o aumento ca adesão ao tratamento, que muitas vezes e baixa em função da grande quantidade de injeções", esclarece a endocrinologista Ana Claudia Ramalho, diretora do departamento de Atividade Fisica da SBD. "Corn o SIC, também chamado bomba de insulina, o paciente apenas aperta um botão para reajustar o trata-mento e substitui quatro 'picadas' diárias por uma a cada três dias", completa. Além disso, o Accu-Chek Spirit permite a administração individualizada tanto da insulina basal, requerida pelo corpo ao longo do dia, quanto da chamada insulina bolus, relacionada principalmente ás refeições. "A retina fica muito mais flexível. A alimentação não precisa ser feita em horários rigidos e não há necessidade de restringir as atividades fisicas, por exemplo. Basta ajustar a dose de insulina", explica a endocrinolog sta.

Insulina Inalável

Entre todos os lancamentos, no entanto, um que deve chamar bastante a atenção de pacientes e médicos e a primeira insulina humana inalável. A Pfizer sai na frente dos concorrentes e inaugura uma nova pagina no mercado das insulinas com o Exubera, alternativa mais cómoda indicada para o diabetes tipo 1 e 2, que já recebeu o sinal verde da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (An-visa). 0 medicamento chega com a promessa de aumentar a adesão dos pacientes ao tratamento, uma vez que não é injetável "Por se tratar de uma terapia não-invasiva, Exubera poderá aumentar as chances de inicio precoce do tratamento, já que muitos pacientes adiam o uso da insulina por causa das njecões", afirma João Fittipaldi, diretor médico da Pfizer. Para o lançamento do produto, a Pfizer se apóia numa pesquisa internacional corn 1.444 pacientes de sete países, que detectou que 41% dos portadores de diabetes rejeitam ou adiam tratamento com insulina devido ao inconveniente das aplicações diárias de injecóes. 0 medo das agulhas aflige 42% dos entrevistados rio Brasil. E importante ressaltar, entretanto, que o Exubera não elimina por completo o uso das injeções. "A insulina inalada é de ação rápida, ou seja, substitui apenas as `picadas' dos pacientes nas refeições", explica presidente da SBD. Enquanto isso. a concorrência corre atrás. Pelo menos três laboratórios também preparam atualmente suas próprias versões de insulinas inaláveis. Na Lilly e na Novo Nordisk, os produtos ainda estão em fase de testes. 0 sistema AERx IDMS de insulina inalável. da Novo Nordisk, será sob forma líquida, o que diminui a possibilidade de irritação nas vias respiratórias, garante a companhia. Ainda segundo o laboratório, o sistema eletrônico do aparelho libera a dosagem precisa de insulina como um aerosol (de uma em uma unidadel apenas se o paciente estiver com a respiração estável. Caso o paciente esteja ofegante, o sistema não libera a insulina. 0 AERx IDMS iniciará agora a fase final da pesquisa global, quando será definida a dosagem ideal do medicamento a ser empregada pelos usuários.

Ponto-de-Venda

A farmácia deve estar preparada para informar e orientar os pacientes de diabetes sobre a doença e saber tirar proveito deste mercado em cresci-mento. Pesquisas realizadas pela Roche Diagnostics mostram que enquanto um consumidor comum gasta em média 637 reais por ano na farmácia, urn paciente cam diabetes gasta três vezes mais o valor: cerca de 1.912 reais por ano. Ele também freqüenta com mais assiduidade a farmácia. Enquanto o consumidor comum vai em média seis vezes á farmácia no ano, o consumidor com diabetes insulina-dependente chega a ir 24 vezes. "Obviamente, a venda de outros produtos também acaba sendo alavancada", afirma Renato Arruda, gerente de varejo da Roche Diagnostics Brasil, Ele explica que é muito importante que o ponto-de-venda tenha um espaço exclusivo onde o portador de diabetes possa encontrar concentrados todos os produtos que necessita, corno monitores, tiras, produtos light e diet e até mesmo peças de vestuário. Arruda recomenda, no entanto, que a farmácia evite o uso do nome "Cantinho do Diabético" para designar o espaço. "Tem uma conotacbo negativa. Essa área deve ser pensada como um centro de produtos e serviços para quem tem diabetes, no qual a pessoa possa encontrar atendestes especializados e informações que a ajudem a alcançar unia melhor qualidade de vida", afirma.